8 de dezembro de 2013

POESIA TRIFÁSICA + TERRA (COM NEUTRO)

o SINDICATO DE POESIA apresenta
POESIA TRIFÁSIA + TERRA (COM NEUTRO)

Em pleno Dezembro, nos dias 18 e 19 e 20, entramos no pericárdio da cidade pela aurícula direita do Natal adentro, uma artéria aorta na Rua do Souto, e instalamo-nos lá, com a cumplicidade da Associação Comercial de Braga, da Universidade do Minho, do Museu Nogueira da Silva e da Igreja da Misericórdia (Santa Casa da Misericórdia de Braga).
Espraiamo-nos, então, até ao ventrículo correspondente, e num espasmo poético-eléctrico, projectamo-nos Rua do Souto fora, num esgar de 220 volts. Misturamo-nos com as iluminações natalícias pendentes e inventamos a poesia trifásica + terra (com neutro).
É pela poesia que queremos electrificar, junto às ornamentações voltaicas do Natal, o coração da cidade de Braga, aí desenhando a geografia poética de outros sentires. Passeando, construímos um recital natalício estilhaçado, cujos pedaços trataremos de recolher e organizar num último momento, no átrio da Associação Comercial, para guardar depois, num sítio secreto, junto ao coração.
Começaremos pelo Museu Nogueira da Silva (fase 1), onde a poesia de Natal estará exposta (mas viva, porque dita), e onde o espectador encontrará algumas das personagens menos relevantes do presépio, por se terem perdido no labiríntico monte de Belém, sem estrela fiel que as guiasse, e elas cegas, agarradas a trela que levava a coisa nenhuma. E agora ali se acham, mirando um menino longínquo nas palhinhas, mas nas palhinhas elas mesmas, ecos de um futuro a encarar.
Seguimos depois rua fora até ao Largo do Paço (fase 2)  onde nos cruzaremos com os livros que nos cantam também o Natal, lombadas felizes que entoam a vozes nas prateleiras das bibliotecas, páginas deitadas que, em escada, nos projectam mundo acima, até à estrela electrificada, quem sabe...
Prosseguimos na Associação Comercial de Braga (fase 3) , na Rua D. Diogo de Sousa, com as palavras proseadas das histórias de Natal, conhecidas e desconhecidas (haverá um quase inédito de Mário Cláudio para escutar aqui).
E terminamos no átrio da Associação Comercial (terra), momento mais performativo, onde juntaremos pedaços de tudo o que pudemos ouvir e experimentar e, numa outra perspectiva, lhes conferiremos sentido.
Num local intermédio, Igreja da Misericórdia, entre as fases dois e três, explodirá de som (neutro), uma outra emoção e gramática, num pequeno concerto musical coral.
Ao longo do percurso, imprevistos interruptores serão activados e restabelecerão as ligações ao que possa acontecer, ser dito, escutado, espreitado e, enfim, convertido nessa poética energia que nos há-de iluminar. Convidamos alguns artistas a que gravassem poemas para o sindicato e eles acederam. Assim, eis uma breve lista de algumas das vozes que serão escutadas: as dos actores João Reis, Luís Miguel Cintra, Pêpê Rapazote, António Fonseca, Pedro Lamares e Jorge Mota; a do realizador Luís Filipe Rocha; a do cantautor José Mário Branco; a do inventor de canções Carlos Tê; as dos intérpretes Adolfo Luxúria Canibal e Manuela Azevedo; a das actrizes Manuela de Freitas e Leonor Salgueiro; a da comunicadora Catarina Furtado; a da sindicalista Sofia Saldanha; a do activista pela poesia João Gesta (entre outras mais).
Cidade afora, coração adentro.

O ITINERÁRIO

Museu Nogueira da Silva (fase 1) – 21h00
Eduardo Jorge Madureira,
Marta Catarino,
Daniel Pereira e
Gaspar Machado.
Coordenação de Gaspar Machado.
Colaboração plástica de João Catalão
e uma canção original de Daniel Pereira a partir do poema Prelúdio de Natal de David Mourão-Ferreira.
Quando a notícia chegou, dizendo que em Belém uma criança nascera, eles meteram pés ao caminho e foram.
Na longa estrada por percorrer, que vai do sítio que cada um ocupa até ao pedaço de chão que é presépio em cada um, perderam-se e, por coincidência, encontram-se agora no museu, em pequenos nichos onde agora posam, peças de decoração antiga e, por momentos, seres em exposição e expiação. E por lá se quedam, os quatro, o “autor”, o “sem abrigo”, a “senhora margarida” e o “carpinteiro” (sindicalizado), todos confinados à sua pequena cela pelo cordão de veludo que congela a sua pose, em quase sépia: o autor, sentado nas palhinha do destino que não ousou encontrar, frente a frente com o seu desafio, uma máquina de escrever pousada na breve mesa onde o aguarda o beijo daquela chávena de café já gasto; o sem abrigo, que organiza o seu frio no chão de cartão, embrulhado numa guitarra e num cão; margarida, espreguiçando-se naquela chaise longue improvisada, com os pés num sonho de chão de novela e a cabeça numa igreja salvadora; o carpinteiro, incógnito irmão de José, empoleirado num escadote, e com um fardo de palha como banca de trabalho;
São, todos, personagens perdidas de um presépio que nunca chegou a haver. Personagens de cartão que arderão como palha no fogo da poesia.
OS PROFETAS. Reinaldo Ferreira. DP
VISITAÇÃO. Reinaldo Ferreira. GM
CANÇÃO DO PASTOR PERDIDO. Reinaldo Ferreira. MC
NATAL. Ruy Cinatti. DP
NÃO CORTEM O CORDÃO. Herberto Helder. MC
NATAL. Miguel Torga. DP
NA TAL. David Mourão-Ferreira. MC
NATAL, E NÃO DEZEMBRO. David Mourão-Ferreira. GM
UM ROSTO NO NATAL. Ruy Belo. DP
NATAL CHIQUE. Vitorino Nemésio. EJM
NATAL UP-TO-DATE. David Mourão-Ferreira. GM
NATAL AFRICANO. Cabral do Nascimento. EJM
“POR NAVIDAD…”. Jorge de Sena. MC
NATAL À BEIRA-RIO. David Mourão-Ferreira. GM
CHOVE. É DIA DE NATAL. Fernando Pessoa. MC
PRIMEIRO NATAL. João Maia. EJM
NATAL DE 1945. Jorge de Sena. DP
NATAL DE 1965. Jorge de Sena. EJM
LITANIA PARA O NATAL DE 1967. David Mourão-Ferreira. MC
NATAL DE 1971. Jorge de Sena. GM
NATAL DE 1972. Jorge de Sena. EJM
PRELÚDIO DE NATAL. David Mourão-Ferreira. DP

Largo do Paço (fase 2) – 21h30
Ana Araújo,
Ana Arqueiro,
Eugénia Brito,
Fernando Coelho e
Luísa Fontoura.
Coordenação de Luís Barroso.
Pequeno recital de palco, com cenografia minimalista: cinco cadeiras para cinco recitadores com muitas mil folhas cada um, um jornal e uma bandeja. A literatura pode comer-se? Há livros que se devoram com sofreguidão? De que se fala, quando se fala de livros? De que madeira são feitos, matéria indizível, antes de serem papel e tinta, antes de serem livro e jornal, antes de serem tinta e literatura, ou nem isso, apenas palavras que se reuniram sem sentido, ou com sentidos entretidos, nas páginas de uma publicação qualquer? De que poesia são feitos estes livros de que se fala, mesmo que nas folhas, nas mil folhas que se sorvem à colherada, falte uma, a folha cinco, e sem ela o poema resulte coxo, mas um coxo luxuriante de sensações e emoções porfiando?
É ENTÃO ISTO UM LIVRO. Manuel António Pina. AA 

OS MEUS LIVROS. Jorge Luís Borges. EB 

NADA CONSTA. Ruy Belo. FC 

PALAVRAS. Fernando Pinto do Amaral. AA 

«THE HOUSE OF LIFE». Manuel António Pina. LF 

A LEITORA. António Ramos Rosa. AA

LIÇÃO. Nuno Júdice. FC 

LIVROS. Caetano Veloso. LF

. Pedro Mexia. AAra 

LOUVOR AO LIXO. Adília Lopes. EB 

NÃO GOSTO TANTO DE LIVROS. Adília Lopes. AA

LIBERDADE. Fernando Pessoa. AAra

23. António Franco Alexandre. EB

POEMA DE NATAL. Vinicius de Moraes. LF 

O LIVRO. Manuel António Pina. FC

Igreja da Misericórdia (neutro) – 22h00
Almeno Gonçalves,
Ana Leite,
João Miguel Braga Simões/Tomé Azevedo e
Rui Vieira.
Coordenação de Almeno Gonçalves.
Quatro cantantes, em quatro estantes, aquecidos com luminosas luzinhas de natal, cantam. A ornamentação está nas vozes e na pele. São canções de natal, sim, algumas, mas nem todas. Este é um pequeno concerto sem encenação nem instrumentação, para além da que resulta das quatro vozes harmoniosamente relacionadas, que dialogam, pois, que conversam e discutem e que também falam a uma só voz. Um sopro que chama pelo outro, um ventezinho que mata, uma emoção que toma o nosso preciso lugar nos bancos da velha igreja. Porque o natal também se canta. Ou porque sobretudo se canta. E nós, o Sindicato, tem misericórdia de si, uma nota de música que somos nós. Entre as fases dois e três, a canção chama-nos para a Igreja da dita cuja (misericórdia) e, ali, lavamos os ouvidos, uma espécie de estação neutra, O NEUTRO, antes de seguirmos para outras poluições pela palavra. Talvez mais justo seja dizer ‘contaminações’.
SALVE REGINA. Diogo Melgaz.
WHITE CHRISTMAS. Irving Berlin (c.1940).
VERBUM PATRIS HUMANATOR. Anónimo, séc. XII.
DECK THE HALLS. Tradicional do País de Gales.
WIE SOLL ICH DICH EMPFANGEN. J. S. Bach.
IN DULCI JUBILO. Robert Pearsall (séc.XVIII).
ES IST EIN ROS ENTSPRUGEN. Anónimo séc. XVI.

Salão Nobre da Associação Comercial de Braga (fase 3) – 22h30
Ana Gabriela Macedo,
António Durães,
João Figueiredo,
Manuela Martinez e
os desenhos de Sebastião Peixoto.
coordenação de Manuela Martinez.
À volta de uma mesa e de um microfone antigo, quatro pessoas lêem dois contos: “A Festa” – excerto do conto, “A noite de natal“, de Sophia de Melo Breyner Andersen e a “A visita da estrela“ (conto quase inédito) de Mário Cláudio. Quatro vozes desmultiplicam-se num mundo de personagens, animam duas narrativas e constroem um puzzle radiofónico. Sons programados ilustram-nas, como se de teatro radiofónico se tratasse: abrir presentes, tilintar de copos, estalar de degraus, descer e subir escadas, abrir portas e portões, fechar ferrolho, latir de cães, mugir de vaca, zurrar de um burro, varejar de azeitonas, o toque das doze badaladas; tudo de repente a ser música. Junta-se ainda, um artista plástico para abrilhantar as histórias da noite que se diz mágica, plena de personagens, de olhares alegres ou receosos ou então assustados. Personagens inquietas ou tranquilas ou amarguradas.
A FESTA (excerto do conto A NOITE DE NATAL). Sophia de Melo Breyner Andersen.
A VISITA DA ESTRELA (conto quase inédito). Mário Cláudio

Átrio da Associação Comercial de Braga (terra) – 23h00
Alexandra Fernandes,
Ana Campos,
David Ramalho,
Gabriela Barros e
Susana Cerqueira.
Olhar coreográfico de Cristina Mendanha.
Vídeo de Filipe Lopes.
Banda sonora original de João Figueiredo.
Como se somam poemas até dar conta certa? Quanto dá somar um poema com outro poema e traduzi-lo em corpo e movimento e, nesta adição, nesta matemática dos sentidos, juntar-lhes as respirações descompassadas das perguntas nos pés, interrogações nos joelhos, inquietações nos cotovelos, nas omoplatas, narrativas com espaço para percorrer, equação por resolver vestidos com uma banda sonora como fato feito à medida.
Nesta pergunta hão-de reflectir-se e juntar-se, como se de estilhaços se tratasse, pedaços de tudo o que já se viu, ouviu, sentiu, intuiu ou pressentiu, ao longo desta viagem. E reunidos os pedaços com a saliva da palavra - cola irredutível - hão-de constituir-se corpo efervescente, e voar. E todos serão esse corpo e fecharão esse livro acabado de ler. Os corpos dizem esse derradeiro poema como se as mãos fossem boca e articulassem as palavras sem sopro nem pulmão. Palavras “ditas” para serem vistas.
Cinco corpos para cinco citações. Todos dos corpos para todas os sentidos.

POESIA NO ESPAÇO PÚBLICO
(sonorização mínima e cuidados técnicos de Paulo Oliveira Sousa)
As palavras que um grupo de cidadãos (artistas) indiscutíveis ofereceu ao Sindicato de Poesia, ainda brilham mais alto que as ornamentações deste natal de 2013. Eles chamaram os poetas, subtraíram-nos às suas bibliotecas e deram-lhes voz. E disseram, entre tantas coisas, que “A Europa enlouqueceu e pede que a fechem”, uma banalidade que ouvimos de novo, de uma maneira que só os poetas sabem dizer... Queríamos, oh se queríamos, uma outra realidade, avisados que estávamos de que, algures, por exemplo “No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas, os salários são elevados e os preços descem regularmente”. Desejos… “Fuje fuje, Leonoreta, vai na brasa de lambreta”, e já fugimos à frente dela, da lambreta, e voamos Rua do Souto abaixo, fugindo da morte, mesmo sabendo que “Um dia destes tenho o dia inteiro para morrer. Espero que não me doa”, que a esperança é a última a morrer. Mas nada de dramas, até porque, se “Já gastámos as palavras meu amor”, sem palavras, que podemos nós fazer, sem esse específico osso que sustenta o pensamento? Se “Esta página por exemplo não nasceu para ser lida”, como a podemos nós ler?.
Se “De cada vez que um governo necessita de segredos, é o mesmo que negar a liberdade”, que podemos nós dizer? Que “Com fúria e raiva acuso o demagogo, E o seu capitalismo das palavras”, é o que podemos dizer, gritando a quem nos ouve. Com o dedo esticado e a voz em estado de megafone. E, talvez, em jeito de greve, não fazer a barba, porque “Hoje não é um dia para fazer a barba, não é um dia para homens”.
E não desbaratar essa electricidade, e ficar na sombra.
Ai noites de Natal que dáveis luz, Que sombra dessa luz nos alumia?” quando nos tornamos “mais tarde ou mais cedo, naquilo em que simpatizo”. E seguimos em fila, ordenadamente, quais “Pinheiros de Natal alinhados como refugiados de Guerra”, quiçá apaixonados em dia certo: “Raios te partam rapariga, como podia eu amar-te tão estúpida eras”. Porque ela, ou “Ele, é a eterna criança, o Deus que faltava”. E dançamos para espantar o frio como no poema de Cecília Meireles: “Esta menina tão pequenina quer ser bailarina. Não conhece nem dó nem ré, mas sabe ficar na ponta do pé.” Para espantar o frio. Para sermos felizes durante um par de minutos.

E OS POEMAS GRAVADOS por:
António Fonseca (Solstício de Dezembro, João Rasteiro)
Carlos Tê (Aviso aos Náufragos, Paulo Leminski)
Catarina Furtado (Servidões, Herberto Hélder)
João Gesta (Part Time, José Miguel Silva)
João Reis (Epitáfio para uma Europa, Nuno Júdice)
Jorge Mota (Adeus, Eugénio de Andrade)
José Mário Branco (Jorge de Sena)
Leonor Salgueiro (excerto do Poema do Menino Jesus, Alberto Caeiro)
Luís Filipe Rocha (Poema da auto-estrada, António Gedeão)
Luís Miguel Cintra (Vão as serenas águas do Mondego, Luís de Camões)
Manuela Azevedo (A Bailarina, de Cecília Meireles; e A Rua É Das Crianças, de Ruy Belo)
Manuela de Freitas (Com Fúria e Raiva, Sophia de Melo Breyner Andresen)
Pedro Lamares (Fernando Pessoa)
Pepê Rapazote (Litania do Natal, José Régio)
Sofia Saldanha (Lotes de Pinheiros de Natal, Chris Green na trad. de Ana Chaves para o Sindicato)
Diogo Infante (Notícias do Paraíso,  Zbigniew Herbert)
Adolfo Luxúria Canibal (Reservado ao Veneno, António José Forte)
  

APOIOS: Rádio Universitária do Minho, Rádio Antena Minho, Correio do Minho, Conselho Cultural da Universidade do Minho, Museu Nogueira da Silva, Santa Casa da Misericórdia de Braga, Associação Comercial de Braga, Braval, Arte Total - Centro de Educação pela Arte;


https://www.youtube.com/watch?v=io7EFLm8LEA











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